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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Homem não chora!

"Seo" Sebastião era definitivamente um homem sério!
Disciplinado, rígido, honesto e dedicado à família!
Sua vida era seu trabalho e sua família!
Seu trabalho exigia muito da presença dele! Fato!
Era militar! De carreira! Do Exército! Oficial!
Mas isso não fazia dele exatamente um "ausente"!
Sempre que podia reunia sua família!
Uma linda e grande família!
Era casado e tinha oito filhos.
Cinco homens e três mulheres!
"Seo" Sebastião para os vizinhos e no quartel, Coronel Sebastião!
Hoje, o coronel está aposentado, já há algum tempo!
Oitenta e três anos bem vividos - diria ele!
Mas o militar, estava perdendo a guerra da vida, pois sua saúde era bem delicada!
E no seu leito, recebia todos os filhos, noras, genros e netos, pois era seu aniversário!
E sabiam que provavelmente, esse seria o último na terra, devido à sua idade e estado delicado de saúde!
Estava na cama e olhava para todos os seus filhos ali reunidos!
E refletia sobre a criação que havia dado a eles!
Quando um dos filhos, o mais jovem deles, Paulo (o Paulinho para todos os irmãos) pergunta ao perceber seu "velho" pensando na vida:
- No que está pensando pai?
O Coronel antes de responder dá uma olhada na família, respira, como que para pegar força e também ter um tempo para refletir e responder...e diz:
- Estava olhando para vocês meus filhos! E saibam que com muita alegria no coração! Com muito orgulho pelo que se tornaram! E de algum modo, tenho participação nisso! Sou extremamente grato a Deus pelos meus filhos, pela minha família!
A família toda que estava reunida ali, se emocionou obviamente com as palavras do pai, que estava ali no leito, com a saúde bem prejudicada!
Na verdade, a família não sabia quanto tempo mais ele duraria, e essa palavras emocionaram a todos!
Sabiam que era uma reflexão de uma pessoa que estava sentindo a proximidade da morte!
E o coronel deu uma tossida, puxou o ar...e se preparou para continuar a filosofar (como diria o caçula quando o pai dava sermão...):
- Realmente tenho muito orgulho de minha família! Meus filhos todos se casaram. Fato é que nem todos continuam casados! Metade ainda permanece no casamento! Mas acontece! Tempos modernos! Sei que as coisas mudaram! Isso na verdade não me choca! Pelo menos todos os filhos se formaram e todos sem exceção tem carreiras de sucesso! Todos bem empregados! Então valeu a pena a minha rigidez e disciplina de cobrá-los para estudar!
Nesse momento os filhos se entreolhavam com ternura pelas palavras do pai naquele momento!
E faziam um movimento com a cabeça de aquiescência, pois sim, valeu a pena toda a cobrança do "velho".
- Mas, (continuou o homem) há algo que não me deixa totalmente orgulhoso!
Os filhos se entreolharam surpresos... o que seria??
Vocês se lembram, principalmente os filhos homens, que eu sempre dizia a vocês, que "homem não cho...
- "Que homem não chora"! Adiantou de uma forma meio deselegante e irritada, o caçula!
Apesar da interrupção do caçula, e do clima ligeiramente tenso que ficou no quarto, o "velho" não se abateu e continuou:
- Sim, essa frase! Sempre a disse! Porque acredito nela! No poder dela! Mas creio que vocês na verdade não a entenderam corretamente! E não é culpa de vocês! A culpa foi minha! Pois eu na época, não soube explicar corretamente! Não estou decepcionado com vocês! De forma alguma, estou decepcionado comigo! 
Os irmãos se olharam agora, confusos...meio que perplexos! Pois aquele durão agora estava assumindo algo que errara na educação deles!
- Eu falava para vocês que homem não chora! E ainda acredito nisso! Mas não expliquei a vocês, como eu via isso! Não significava que se um de nós chorássemos que fôssemos fracos! Não era essa a mensagem que eu de verdade queria passar a vocês! Eu errei! Estou desapontado comigo mesmo! Não, não é demérito algum homem chorar! Não demonstra fraqueza! Ao contrário! Mostra força de caráter! Nobreza!
- Eu entendo que um "Homem" de verdade não chora, não deve chorar por um motivo!
- Esse "homem de verdade" deve ser carinhoso e sensível ao tratar as mulheres de sua vida! Na verdade, deve tratar sua mulher como uma Rainha! Ser educado, prestativo, e mais...PARCEIRO! Esse homem verdadeiro, galante, sensível, carinhoso sabe que deve dar prazer a essa mulher! Não somente ele obter prazer! Sabe que sua mulher não foi feita para estar atrás dele, e sim ao lado! Como parceira!
E esse homem será feliz! Porque terá retorno dessa parceira! Aliás, hoje mais ainda o homem deve tratar bem a parceira! Mudaram os tempos eu sei! A mulher não precisa mais do homem financeiramente! Não precisa que ele seja o provedor e mande nela! Aliás, homem que tenta mandar na mulher, está ultrapassado! Machismo é algo ultrapassado!
Os filhos se olhavam com uma surpresa enorme! Estavam em êxtase quase com a lucidez e sabedoria do "velho"!
- Então, como eu dizia, "homem" de verdade, trata bem sua mulher! E por isso é feliz! E portanto, não chora! Isso que eu queria dizer, entenderam?
- Eu na época, não soube continuar a frase! Esperei que entendessem!
- Homem de verdade não chora! Porque trata sua mulher tão bem! E ela não o faz chorar! Entenderam?
Os filhos todos não cabiam dentro de si de alegria em ver o "velho coronel" que eles viam como austero, rígido e disciplinado, sendo uma pessoa sábia e sensível com os filhos!
Nunca é tarde para evoluirmos!
Para adquirirmos consciência!
E nesse momento, os filhos nunca tiveram tanto orgulho do pai!
Dessa sabedoria que ele estava passando a eles!
E como se soubesse que aquelas palavras seriam seu último ato... o coronel perde os sentidos!
E placidamente falece!
Como que em paz, pela missão cumprida!
E os filhos ali, surpresos com as palavras do pai antes de falecer, sentiram que deveriam ter passado mais tempo com o "velho"!
Afinal, eles por preconceito, se afastaram daquele homem bom de coração, mas austero!
Não imaginavam que ele adquiria sabedoria e se tornaria uma pessoa sensível!
E os filhos se juntaram em volta do pai uma última vez!
Não... não havia lágrimas!
Estavam honrados com aquele momento último de lucidez e sensibilidade!
Afinal de contas, homem não chora!


- Mauricio Franchi - 


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